Sou preta pós-graduada: conselhos de minha mãe nordestina e minha síndrome da impostora

Quando eu tinha quase 20 anos, minha sábia e maravilhosa “mainha” (mãe rainha), sentou-se ao meu lado para um ‘café filosófico’. Conversamos sobre expectativas de vida, ela me contou sobre como sobreviveu até ali, sobre como é difícil, mas não impossível, ganhar vida honestamente.

Ela me aconselhou sabiamente, como toda mãe que quer ver seus filhos progredindo, que eu estudasse, se possível temas diversos, já que era imprevisível saber de onde surgiria uma oportunidade. Ela me estimulou a trabalhar em uma empresa grande: “essas que te dão chances de criar uma carreira completa, sem mudar o registro na carteira”.

Concordamos que outra prioridade seria comprar um terreno, mesmo que longe de tudo, para que eu pudesse construir com as ‘minhas próprias mãos’ o meu lugar para chamar de lar. Enfatizou que eu poderia fazer isso tudo sozinha, mas seria melhor encontrar alguém para estar ao meu lado, talvez até casar se assim quisesse e ter filhos, para que eu pudesse saber o que é amor incondicional.

Dona Cida, minha amada mainha, tinha 43 anos na época. Ela sabia que estava deixando um legado de responsabilidades, e que estava ensinando através do exemplo, pois ela viveu exatamente o que propôs que eu fizesse.

Mainha Cida e eu

Eu refleti sobre suas instruções, planejei o que faria, respirei fundo, e sem olhar para trás, fiz todos os cursos gratuitos que apareciam. Consegui bolsa de estudos para fazer graduação, conheci um anjo na faculdade que me ajudou com uma entrevista de emprego em uma multinacional.

Conheci uma pessoa que queria estar ao meu lado, e dessa união fui presenteada com o meu pequeno príncipe, e assim como ela previu, conheci o amor incondicional. Em seguida, tive ajuda de outros anjos para comprar a minha casa e um carro para passear.

Conquistei a lista quase que na ordem sugerida… estava com 27 anos… Certo dia acordei de madrugada, transtornada sem nenhum motivo aparente, me olhei no espelho e não me reconheci. Fui tomada de grande tristeza, chorei profundamente por muitas horas pensando: “Eu sou uma fraude!”

Não merecia ter nada daquilo, e a qualquer momento alguém me tomaria o que conquistei. Não comentei com ninguém sobre o que houve, porque não me parecia certo reclamar de nada, já que tudo estava indo tão bem.

Como não conseguia falar com ninguém sobre o que estava sentindo, esse sentimento só foi crescendo, como um segredo que você tenta esconder com uma mentira, e tem que contar outra mentira e outra mentira…

Com 30 anos, resolvi pedir ajuda para uma profissional, alguém que fosse imparcial, e que pudesse me explicar com literatura científica o motivo de eu querer morrer, quando a única coisa sensata a fazer seria curtir a vida e minhas conquistas.

Foram 6 sessões com a psicóloga. Na primeira sessão já recebi um diagnóstico: SÍNDROME DA IMPOSTORA. É um nome muito sugestivo, confesso, e é assim que os psicólogos descrevem esse padrão de comportamento no qual você duvida de suas realizações e tem um medo infundado e persistente de ser exposto como uma fraude ou incompetente.  Muitas mulheres sentem isso em relação ao seu sucesso, e tem medo de revelar suas conquistas, e ainda mais medo de falar sobre esse sentimento.

Fiz uma análise que acabou em rima (risos) :

Quando Dona Cida com pouquíssima instrução,

tomou a difícil decisão de priorizar a educação,

ela aceitou passar por todo tipo de provação,

sofreu violação, privação de alimentação,

saúde, segurança e bem estar, muita inexatidão!

A cereja do bolo: sem receber qualquer auxílio de pensão,

porque em nossa cultura o filho é responsabilidade da mãe, sem compreensão.

Eu cresci tendo como referência uma luta sem fim de mulheres como a minha mãe, que foram abandonadas em muitos aspectos, a própria sorte para criar seus filhos…

sem ter com quem deixar,

e tendo que ir trabalhar,

sem hora para voltar,

e orando para retornar ao lar.

Alguns estudos como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) demonstram que no Brasil o elevador social aponta que são necessárias 9 gerações para se sair da linha da pobreza, se considerar cada geração com 20 anos, minha mãe precisaria viver até 180 anos para ver sua família livre da fome.

Minha mãe não escolheu o mais fácil, o mais curto, nem o mais justo, mas foi o mais honesto. Mulheres como a minha mãe, tem aos montes espalhadas pelo Brasil. Elas me fazem acreditar em SORORIDADE, precisamos de mais destas mulheres em lugares de tomada de decisão, principalmente no setor público e privado.

“Ubuntu! Eu sou porque nós somos, sozinha eu sou forte, e juntEs somos invencíveis”

São essas mulheres que atuam com grande “seviralismo”*, empreendedorismo e criatividade, essas mulheres não são uma fraude, elas são a base dessa nação que não desiste, que vai e faz, que busca força não sei de onde, e se levanta dia após dia, por anos a fio para dar oportunidade que lhe foi negada desde sempre, a chance de ser tratada com dignidade e ter algum respeito.

Mesmo sabendo de tudo isso, eu ainda acordo algumas vezes no meio da noite, me olho no espelho, e se sinto que não vou me reconhecer, repito algumas vezes o mantra: “Ubuntu! Eu sou porque nós somos, sozinha eu sou forte, e juntEs somos invencíveis. Minha Ancestralidade me trouxe até aqui. Peço permissão e forças para seguir o caminho, se for a vontade do criador.  Fé, Café e Axé”.

Reflexão de Jessica Ferreira Silva de Souza

Leituras indicadas:

https://brasil.elpais.com/tag/ocde_organizacion_cooperacion_desarrollo_economico

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/13/estilo/1489414564_421859.html

https://g1.globo.com/politica/noticia/familias-pobres-brasileiras-levariam-9-geracoes-para-alcancar-renda-media-diz-ocde.ghtml

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