Quando ela quer mudar começa pelo cabelo

Eu sempre tive muito, muito, muito cabelo.

Certa vez quando criança com 8 anos, em sala de aula, a professora fez uma atividade com o propósito de liberar energia dos alunos. 

Cada um dos meus coleguinhas fez algo como tirar o casaco, movimentar-se bastante, soltar os cabelos. Eu, resolvi soltar os cabelos, balançando,  sentindo-me liberta, algo incrível, até perceber que todos olhavam para mim. Eu tinha me tornado ali o “primo Itt”, o “Coisa” do seriado Família Addams. Todos ficaram espantados com aquela “juba” e lembro-me da professora tentando fazer um coque para deixá-lo preso novamente. Foi um desastre natural…

Na infância, um problema em ter muito cabelo são os piolhos, eu tive piolhos ou eles me tiveram, não sei ao certo.

Caçar piolhos na minha cabeça era o equivalente a maratonar séries no Netflix.

Quando “mainha” conseguia matar alguns deles, a família vinha para o enterro e já começa a nova saga de LOST versão piolho.

Era comum se referir ao meu tipo de cabelo como bandido, quando não está preso, está armado.

O meu cabelo tinha personalidade própria, separada de mim.

Naquela época, a indústria de cosméticos ignorava as consumidoras com cabelos crespos. Eu lembro de ver nas prateleiras dos supermercados shampoos para “cabelos normais”, isso não fazia sentido pra mim, o que seria cabelo normal?

A única alternativa eram as receitas caseiras, preparar “mingau de Maizena” ou passar babosa nas raízes. Dava certo!

Socialmente, o cabelo é ” bom” ou “ruim”, bom ou “Bombril”, no conceito popular,  contrário de cabelo liso não é crespo, é ruim. É terrível você passar pela infância, adolescência e vida adulta com suas características físicas rotuladas de negativas.

Às mulheres com cabelos crespos, cacheados, trançados, em transição, ´de lace´, carecas ou qualquer outros que existirem, digo que a nossa beleza singular é justamente a pluralidade representada nessa diversidade. Cabelo da mulher preta não é só mais resistente é a própria Resistência.

Existir parece incomodar, é preciso ocupar esses espaços para naturalizar nossas características, até que não sejam mais um incômodo para ninguém. 

O filme A Felicidade por um Fio da Netflix, retratou em grande estilo a vida de muitas mulheres pretas, que para se verem em destaque precisam ser embranquecidas, adotar um padrão de beleza que se refere a ditadura do cabelo liso, causando dores profundas, físicas e emocionais.

Na série 100 Humanos, também da Netflix,  há o episódio “O que nos torna atraentes? a experiência narra que quanto mais bonito e atraente você é, mais privilegiado você será. Um dos problemas que tal afirmação causa na consciência coletiva é que o bonito é um padrão de beleza eurocêntrica.

E para um caso de julgamento criminal, o professor de Direito Jody Armour afirma que quanto mais escura sua pele e mais traços negroides você tem, maior é a chance de ser julgado severamente, mais digno de morte você é.

A professora e reitora Ashleigh Shelby Rosette da Universidade Duke foi responsável por conduzir uma pesquisa interessante:

Recrutadores avaliaram competência e profissionalismo usando um mesmo curriculo para pretos e brancos. Mulheres pretas com cabelo afro receberam as pontuações mais baixas em relação a mulheres pretas com cabelo liso e mulheres brancas.

Quais mulheres pretas em posição de destaque você se recorda usando seu cabelo natural, e quais delas não sofreram algum ataque racista direta e indiretamente por expor e valorizar as suas características ancestrais?

Ser mulher preta é isso! Viver em constante resistência para ter o direito de ser naturalmente ela mesma.

História de Jessica Ferreira Silva de Souza

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