Diversidade: racismo estrutural no Brasil

Compartilho a experiência de ir ao supermercado na companhia de uma amiga branca, a Karla Cheli Kanasawa.

 Por estarmos em meio à pandemia de Coronavírus, a Karla decidiu não pegar o carrinho para fazermos compras, colocando os produtos diretamente nas sacolas que trouxe de casa. Eu entrei em desespero e logo a questionei por qual razão não utilizaria o carrinho do supermercado. Ela insistiu que era mais seguro, por risco de contaminação, colocar os produtos diretamente na sacola.

 Eu jamais faria isso, sou mulher preta e com antecedentes de ter bolsa revistada ou alguém me vigiando durante minha permanência em um estabelecimento comercial. Se para a Karla, aquela era uma atitude normal, para mim não era, evitaria, inclusive, entrar com a sacola de compras no supermercado.

Direitos Iguais

 Em uma perfumaria, padaria ou qualquer outro lugar, evito abrir a bolsa, pegar o celular, deixo para fazê-lo já no caixa, pois, corro o risco de ser interpelada por alguém. Já perdi a conta de quantas vezes já me ocorreu tal constrangimento!

Enfim, durante todo o tempo que estivemos no supermercado, tomei o cuidado de pegar algo na prateleira e entregar à Karla o produto para que ela colocasse na sacola, Em nenhum momento ela foi abordada, mas eu tinha certeza de que se eu o fizesse, alguém viria atrás de mim.

Alguns dias depois, fui em uma grande loja de materiais de construção na companhia do meu namorado, que também é preto. Um casal branco entrou na loja portanto uma bolsa bem grande, ao entrarmos em seguida, fomos indagados pelo segurança se não desejávamos deixar a mochila do meu namorado no maleiro, argumentando que assim ficaríamos mais a vontade para fazer as compras.

Não aceitamos a dita gentileza, pois em uma rápida observação do fluxo de entrada de pessoas naquele momento, tal sugestão foi dada somente a nós. Obviamente motivada pela cor de nossa pele.

Conversando com outras pessoas pretas, essas também tomam os mesmos cuidados: o ato de pegar o guarda-chuva, pode representar o propósito de pegar uma arma dentro da bolsa, ou ainda, correr para pegar um ônibus, também pode significar a fuga de um suspeito de algum crime.

Como cantava Elza Soares “A carne mais barata do mercado é a carne negra”…

História de Jessica Ferreira Silva de Sousa

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