Bebê Prematuro: o risco de morte a qualquer momento se converteu em um milagre

Era noite do dia 8 de fevereiro do ano 2000, enquanto dormia comecei a sentir contrações fortes estando de repouso já há 2 meses da segunda gravidez. Assustada, chamei meu marido e fomos correndo ao hospital onde minha médica, já estava esperando.

Não havia tempo para mais nada, o trabalho de parto havia começado, cheguei no hospital com dilatação 8, lembro que minha médica, dra Marília, me olhou seriamente e disse: vai ser cesárea!

Minutos depois eu já estava na sala de cirurgia meio abobada com a rapidez de tudo e enquanto o anestesista conversava comigo, o parto ia acontecendo e eu ouvia a doutora, muito atenta em salvar aquela vida, dizer ao médico em tom bem enérgico, que tomasse cuidado com o bracinho do bebê e que estava pegando na parte errada e etc.

Tudo que eu podia ver era a luz forte no alto, o lençol azul e sentir o cheiro de iodo. Não sei quanto tempo durou, mas não ouvi o choro do meu filho e nem sequer pude vê-lo. A ingenuidade me poupou do desespero de saber que era um parto de risco.

No quarto onde fiquei tinha um quadro da Madona, de Rafael Sanzio. Olhando com carinho entendi que aquele seria o nome do meu filho: Rafael! Meu marido gostou e achou providencial.

Só dois dias depois pude conhecer o anjo da minha vida,  pois foi direto para a UTI neonatal após nascer com 1 kg e estar apenas na 32ª semana de gestação. Recebeu uma pulseirinha que o identificava de acordo com a incubadora que ocupava, no caso a número 4, então era o “pulseirinha quatro”.

Meu marido me levou até o lugar onde ele estava e lembro bem da cena: ele era tão pequenininho! Os olhinhos fechados, a pele vermelhinha e extremamente delicada, parecia um sonho. Como eu ia cuidar dele? Nos abraçamos com força e nossas almas entenderam que o compromisso do nosso casamento ultrapassava nossas palavras.

Um mundo novo se apresentava para mim e foi nesse panorama que meus olhos foram se abrindo a essa realidade. A maior dor foi ter alta e chegar em casa sem ele.

A rotina se tornou exigente, pois após a cesárea eu precisava visitá-lo diariamente 2 vezes ao dia, deixar o leite materno para que ele recebesse via sonda, conversar com o médico e ainda cuidar do Gabriel, meu primeiro filho de 2 anos que de repente não tinha mais a mãe ao seu lado, como antes. Não sei como vivi tudo isso, mas pude sentir desde o primeiro momento a ajuda de Deus e das pessoas colocadas em minha vida especialmente para aqueles dias. Como católica tinha uma confiança imensa em que tudo aquilo iria dar certo. Pedi a intercessão de São Josemaría, meu santo de devoção.

O cansaço, as dores da cesárea e as noites sem sono me fizeram perder o leite. Fiquei aflita porque ele dependia da amamentação para ficar saudável. Então tomei chás, muita água, fiz massagem e aos poucos meu leite voltou e eu chegava até a ter febre a noite sem o bebê para mamar. Ainda assim, levantava e tirava para levar na manhã seguinte para o hospital.

Um dia estava tão exausta que não fui na visita da tarde, fiquei com o Gabriel. Nesse dia ele teve uma apnéia, senti profundamente que ele havia sentido falta da mamãe… Nunca mais deixei de ir e segurar em sua mãozinha. Ele ficava dentro de uma incubadora e eu abria a portinha e colocava minha mão na mãozinha dele e conversava: Filho, a mamãe tá aqui, como você tá lindo hoje. O papai te mandou um beijo, o Gabriel não vê a hora de você chegar em casa e… eu te amo muito.

Cada dia um diálogo de carinho. Ele todo cheio de fiozinhos, marcas de agulhas e não tinha mais lugar para colocar o acesso, até na cabeça foi colocado.

Cada dia anotava quantos gramas ele engordava, porque só após atingir 3kg poderia ter alta, mas o caminho para um bebê de 1 kg era muito lento para a tamanha ansiedade que eu tinha de levá-lo pra casa.

Um dia um dos bebezinhos morreu e junto com ele, metade de nós todos. Foi o dia mais triste, todos sem exceção choraram. A mãe era uma japonesa, até hoje dói minha alma porque nem sequer um abraço consegui dar naquele momento e nem depois, porque nunca mais a vi. Há momentos que não podemos ser fracas, mas não consegui ficar com ela olhando para seu bebezinho ali sem vida. Naquele dia queria desesperadamente tirar meu filho daquele lugar, fui para casa desolada e pedi a Deus que por favor tirasse meu filho dali. Na semana seguinte ele foi transferido para outro ambiente, não lembro o nome, talvez semi-uti. Era onde os bebês se preparavam para ir para o quarto.

No quarto, poucos dias antes da alta do hospital

Foi ali que pude pegá-lo no cólo pela primeira vez e um dia antes da alta pude dar banho nele e trocar a fralda. Ele era tão pequeno que tive de aprender como segurá-lo, como trocá-lo, como amamentá-lo e etc. Nem o movimento de sucção para mamar ele tinha porque ainda não estava desenvolvido e precisou fazer fono ainda no hospital.

Existem roupas para prematuros, mas ainda assim estas eram grandes para ele, usávamos esparadrapos para dobrar as pontinhas dos macacões e as fraldas descartáveis eram cortadas mesmo sendo para recém-nascidos.

Quantos médicos, enfermeiras, cuidaram cada minuto do Rafael! Como agradecer?

Tivemos momentos críticos, rezamos muito e tivemos apoio de muitos em oração, não estávamos sozinhos. Num domingo esbarrei com a dra. Marília no corredor do hospital, ela tinha ido visitar o Rafael e fez isso outras vezes, sem que eu soubesse dispensou uma atenção de muito carinho que eu jamais imaginava.

Ainda não tinha noção de tão grande ajuda que recebia de Deus. Era apenas o começo.

Como suportei tudo aquilo? E meu marido, com vontade de estar conosco mas, muitas vezes impedido pelo trabalho. Como se manteve em pé e com capacidade para resolver mil e um assuntos tendo o coração voltado para o filho?

Ainda não somos capazes de enxergar a força que recebemos do Alto. 38 dias depois estávamos indo para casa. Chovia, era um sábado e Nossa Senhora estava conosco…

A conta do hospital era o valor do nosso apto, mas Deus havia preparado um emprego novo para o Michele (seu nome é italiano) e assim tivemos toda assistência na melhor uti neonatal da época e o convênio médico cobriu todos os gastos.

Finalmente o dia da alta!  A sensação de alegria e o sorriso dos médicos e enfermeiras era tão grande que foi impossível não chorar. Impossível não sentir a presença de Deus naquelas pessoas.  Estávamos os três indo para casa com muita alegria e agradecimento.

Em casa aos 9 meses com o irmão Gabriel

Não tivemos saída de maternidade, fotos e tudo aquilo que se prepara hoje em dia para um filho nascido nesses hospitais modernos e luxuosos, mas tivemos algo muito maior: a Vida! E antes de sair do hospital Santa Catarina, fomos direto à capela no térreo com ele nos braços agradecer. Começava um novo capítulo na história de nossas vidas!     

Com o papai Michele, já com 1 ano

Não sei se eu era uma pessoa despreparada para viver isso, penso que sim, mas de alguma forma, sem que eu percebesse, Deus me lapidava com cuidado e foi possível viver a beleza e os desafios diante de tudo isso, crescer interiormente e aumentar minha fé.                          

Aos 5 anos, na aula de artes

Aos 17, comemorando a aprovação no vestibular

História de Lucilene de Angelis

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